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Desmame das canetas emagrecedoras inclui reavaliação metabólica e suporte nutricional

Retirada da medicação precisa acontecer de maneira gradual e com manutenção em baixa dose ganham protagonismo na prática clínica, defende especialista

Popularizadas por marcas como Ozempic e Mounjaro, as chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam escala global e passaram a integrar protocolos clínicos mais estruturados. Com a ampliação do acesso e da demanda, especialistas voltam a atenção para uma etapa menos discutida, porém decisiva de todo o processo de emagrecimento que é o desmame e a manutenção dos resultados.

Levantamento da Goldman Sachs estima que o mercado global de medicamentos para perda de peso pode alcançar cerca de US$ 100 bilhões até 2030, impulsionado sobretudo pelos análogos de GLP-1 e novas terapias combinadas. O fluxo desse tipo de medicamento tem intensificado tanto que colaborou para acender o PIB da Dinamarca que sedia a Novo Nordisk, fabricante de alguns dos fármacos. No Brasil, o avanço da demanda se traduz no aumento das prescrições, na judicialização para acesso a esses fármacos e na proliferação de clínicas especializadas no tratamento da obesidade.

Porém, após a fase de perda de peso, que pode envolver ajustes progressivos de dose até o alcance da meta clínica, inicia-se um processo considerado crítico. Segundo o médico gastroenterologista e cirurgião geral Mauro Lúcio Jácome, a interrupção abrupta do tratamento não é recomendada. 

“Todos os estudos mostram que o melhor caminho é o desmame gradual. Não se trata de um medicamento que pode ser suspenso de forma imediata após o objetivo ser atingido. O protocolo, de acordo com o especialista, exige acompanhamento contínuo. A redução da dose ocorre de forma progressiva, geralmente com ajustes semanais, enquanto o paciente mantém monitoramento frequente do peso. Caso haja estabilidade, o desmame segue; se houver reganho, o processo é temporariamente interrompido. Não é apenas reduzir a medicação. Existe um controle clínico rigoroso, com avaliação de resposta metabólica e ajustes individualizados”, explica o especialista.

A etapa também demanda reavaliação laboratorial. “A perda de peso significativa pode alterar níveis de vitaminas, hormônios e outros marcadores metabólicos. Durante o desmame, é essencial repetir exames. Em alguns casos, há queda de micronutrientes que precisam ser repostos. Além disso, o paciente deve intensificar o acompanhamento nutricional e médico. A integração entre médico e nutricionista é apontada como fator determinante para a manutenção dos resultados sem dependência farmacológica”, compla Dr. Mauro.

O médico Mauro Lúcio Jácome (foto: divulgação)

Mesmo com o desmame adequado, parte dos pacientes pode necessitar de manutenção medicamentosa. Estudos indicam que entre 5% e 10% dos casos demandam uso contínuo em baixas doses, seja para controle do peso, seja para estabilização glicêmica em pacientes diabéticos. Nesses casos, estamos falando de doses menores, que não são as mesmas utilizadas para emagrecimento ativo. E há evidências robustas de segurança nesse uso prolongado.

O especialista destaca ainda que a manutenção farmacológica, quando necessária, pode ser mais segura do que a interrupção completa seguida de reganho de peso ou descontrole metabólico. “Essas medicações, além de auxiliarem no peso, têm benefícios cardiovasculares já bem estabelecidos. Para determinados pacientes, manter uma dose baixa é uma estratégia clínica consistente. Outro ponto observado na prática clínica é o retorno de pacientes após reganho de peso meses ou anos depois do tratamento inicial. Embora não seja a maioria, a situação é prevista na literatura médica. Quando isso acontece, o paciente pode retomar o tratamento, muitas vezes com a mesma medicação, e tende a responder novamente. O importante é que haja acompanhamento adequado”, afirma o médico.

No fim das contas, Dr. Mauro concorda que a consolidação das chamadas canetas emagrecedoras no arsenal terapêutico amplia o debate sobre o manejo de longo prazo da obesidade, condição reconhecida como doença crônica. “Nesse contexto, o desmame estruturado e a eventual manutenção em baixa dose deixam de ser etapas acessórias e passam a integrar o núcleo do tratamento, com foco na sustentabilidade dos resultados e na segurança do paciente”, finaliza.