Expansão do setor convive com lacunas de estudos amplos e pressão por maior fiscalização
A crescente discussão sobre o uso de anabolizantes e terapias hormonais no Brasil expõe uma fronteira sensível entre prática médica legítima e intervenções de caráter estético ou voltadas à performance. O avanço desse mercado também aparece em indicadores econômicos e regulatórios. Dados da consultoria Grand View Research apontam que o mercado brasileiro de terapia de reposição de estrogênio deve saltar de US$ 122 milhões em 2025 para US$ 183,5 milhões até 2033, com crescimento médio anual de 5,3%.
Paralelamente, a própria Anvisa intensificou alertas sobre implantes hormonais manipulados, diante da expansão do uso dessas substâncias para fins estéticos e de performance. Enquanto órgãos reguladores ampliam o cerco sobre implantes hormonais manipulados, especialistas defendem que o debate não deve se limitar à proibição, mas avançar sobre critérios técnicos, indicações clínicas e fiscalização da prescrição. Nesse cenário, ganha força a distinção entre reposição hormonal terapêutica e o uso indiscriminado de substâncias com finalidade estética.
Para a ginecologista Dra. Roberta Brando, especialista em estética íntima e terapia hormonal feminina, parte das críticas ao uso de implantes faz parte de uma leitura incompleta da literatura científica. “A ausência de evidência robusta, como grandes ensaios clínicos padronizados, não significa que o tratamento não funcione ou seja prejudicial. Significa apenas que ainda faltam estudos de larga escala com o rigor metodológico exigido por certas instituições, o que é comum em diversas áreas da medicina”, afirma. Segundo ela, em condições como a endometriose, há evidências consistentes de que substâncias como a gestrinona promovem redução da dor, indução da amenorreia e diminuição da atividade da doença.
No caso da menopausa, a médica sustenta que o princípio da reposição hormonal já está consolidado. “O debate real não é sobre a eficácia dos hormônios em si, mas sobre qual via de administração oferece melhor estabilidade hormonal, maior adesão do paciente e segurança no contexto clínico específico. Os hormônios como estradiol e testosterona, quando bem indicados, podem trazer benefícios clínicos relevantes, especialmente quando administrados de forma que garantam liberação contínua e controle dos níveis séricos”, insiste.
A controvérsia se intensifica diante do avanço de práticas voltadas ao desempenho físico e à estética corporal, frequentemente associadas ao uso de anabolizantes em doses inadequadas. Para Brando, há uma confusão prejudicial entre marketing e medicina. “Existe uma distinção clara entre o marketing exagerado e a prática clínica real. Generalizar e colocar o uso de implantes no mesmo patamar que o charlatanismo é um erro. A medicina deve considerar não apenas evidências de larga escala, mas também a plausibilidade biológica e a experiência clínica acumulada, sempre com foco na individualização do tratamento”, completa Dra. Roberta.

Nesse contexto, a comunidade médica converge na avaliação de que o problema central não é a ferramenta terapêutica, mas o seu uso indevido. A recente discussão sobre restrições aos implantes hormonais evidenciou a necessidade de maior rigor na fiscalização e na comprovação diagnóstica.
“O ponto central não deve ser a proibição da via de administração, mas a fiscalização rigorosa de quem prescreve e para qual finalidade. Combater promessas de ‘corpos perfeitos’ e garantir que pacientes tenham acesso a informações claras são medidas essenciais para proteger tanto a saúde pública quanto a prática médica responsável”, finaliza a especialista.










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